SE QUERES SER FELIZ

Se queres ser feliz, não contabilizes as perdas do ano velho, nem recolhas pedras em tuas mochilas. Coleciona afetos, permite que lagartas se transmutem em borboletas, silencia as palavras sem raízes no coração.
Não sigas os passos dos sonegadores de alvíssaras, mancos de bondade, cegos de sutilezas, bêbados de ambições e medrosos perante a ousadia de viver. Nem te espelhes nos que cercam a alma com arame farpado e não sabem o rumo a seguir; traçam labirintos em seus mapas imaginários, enfeitam-se com buquês de palavrões e rasgam o ventre da água com as pedras adormecidas no leito de seus pesadelos. Segue o conselho de Ulisses e foge dos que mastigam lótus em busca da amnésia que produz ilusão de felicidade.
Abraça os que tecem com o olhar o perfil da alma e, no silêncio dos toques, curam a pele de toda aspereza. Sê portador do ovo de promessas, sem que a ilusão o quebre e, crédulo, dobra os joelhos diante do mistério divino. Identifica as trilhas aventurosas da vida mapeadas na geografia de tua pele e não te envergonhes da topografia de tua pele e não te envergonhes da topografia disforme de teu corpo.
Deixa a chuva embriagar-te, oferta luas à namorada e faz da poesia a tua lógica. Vai ao encontro dos colecionadores de araucárias, que enfeitam de sonhos suas florestas e, na primavera, colhem frutos de plenitude. Caminha sobre tatames; por ter pressa de chegar, jamais corras. E presta socorro aos navegadores solitários, pilotos cegos e peregrinos mancos, que se arrastam pelas trilhas da desesperança.
Ergue teu cálice aos trovadores do insólito e aos que conhecem o segredo de fazer brotar água de pedra.
Descobre Deus escondido numa compota de pêssegos em calda ou no vaga-lume que risca um ponto de luz na noite sem estrelas. E nos que aprendem a morrer, todos os dias, para os apegos de desimportância e, livres e leves, alçam vôo rumo ao oceano da Transcendência.
Reverencia o silêncio como matéria-prima do amor e arranca das cordas da dor carícias musicais e dá as mãos aos que suprimem a letra erre do verbo armar e se recusam a ser reféns do pessimismo. Sê condescendente com os poetas-pássaro sem poemas, os músicos sem melodias, os pintores sem cores e os escritores sem palavras acesas. E com os que jamais encontraram a pessoa a quem declarar o amor que os fecunda em gravidez inefável.
Decifra enigmas sem revelar inconfidências e, nu, abraça epifanias sob cachoeiras de acácias. Percorre os bosques onde vicejam anjos de luz, fadas, silfos, elfos, gnomos, unicórnios, colibris e crisálidas e te banha nas correntezas do inaudito, deixando os cabelos grisalhos flutuar sobre a saciedade de anos bem vividos. De mãos dadas com todos que dão ouvidos à sinfonia cósmica, baila com os astros ao ritmo de siderais incertezas nos salões da Via Láctea. Maktub!


(por EUGENIO SANTANA )