Arrogância
           
Felipe Coelho

 

 

Nossas construções não serão partidas
em fragmentos esquecidos, esmagados entre raízes
e esperando pás de arqueólogos
que falarão línguas ainda por nascer.

Nossas estradas não se tornarão leitos de rios,
veias onde circularão o cascalho e a lama,
tambores onde patas de animais ecoarão nas suas migrações
e obstáculos onde as raízes das árvores crescerão mais lentas.

Já construímos o sonho e o pesadelo - é nosso direito -
e a luz de incontáveis anos não os dispersará.
Já ordenamos à Terra e à Vida cumprir nossas sentenças
- e esperamos que obedeçam.

Assim iludidos deixamos marcas de fogo,
de pedra, de água, de papel e de sangue.
Deixamos tudo, confiantes,
acreditando ter erguido a Eternidade.
E desapareceremos na sombra,
dissolvidos pelo tempo, numa dobra esquecida
da memória da Terra, junto aos mamutes,
aos atlantes e aos deuses de povos mortos.

Outros seres, outros povos
talvez nos redescubram
em outras eras, achem nossas bibliotecas e cantem
nossos feitos em suas lendas,
ao lado das lutas sem esperança
de Gilgamesh e de Hércules,
de Arjuna e de Odin, 
ao lado dos mensageiros ignorados
Lao Tsé e Jesus, Maomé e Buda,
talvez chorem por nós e nos entendam

*Felipe Coelho é físico,professor da UFRJ e poeta.

http://omnis.if.ufrj.br/~coelho/livros.html
e
http://usuarios.cultura.com.br/migliari/

 

Dança da chuva

A luz e sua ausência

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Atlântida - X Arrogância E na ausência Moderna teia
Uma manhã      

 

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