Memórias de Atlântida (VI)

 


O planeta era diferente.  
Havia outros continentes,  
banhados por outros oceanos,  
e ilhas maravilhosas, esperando serem descobertas,  
mas que o Homem nunca conhecerá.  

E havia desertos onde hoje há florestas, serras imensas  
contornadas pelos ventos em lugares onde hoje moram peixes,  
vastidões de campinas floridas 
onde o pólen era carregado por abelhas 
e que hoje são gélidos planaltos.  

O planeta era retalhado em muitos países,  
alguns governados pela palavra divina dos sacerdotes,
outros pela tradição dos reis, por assembléias do povo 
ou pelas legiões a mando de ditadores.

Suas fronteiras, traçadas por cultos diplomatas 
e por vitoriosos exércitos, deixavam rastros  
de tratados de paz e de cadáveres.  

Havia longas estradas ligando cidades,  
habitadas por gente chegada de planetas distantes,  
e atravessando campos, plantados havia muito  
com desconhecidas sementes.  

E a tudo dominavam seus habitantes, 
querendo saber porquês e comos, 
construindo indústrias e universidades,  
movendo rios e montanhas, 
reescrevendo  a Natureza.  

Mas isso era só o início de suas angústias.  

Havia casais apaixonados que se viam refletidos no mar  
quando do alto de penhascos olhavam o por do sol  
e prometiam ser eternamente um só.  

Havia os que se libertavam da rotina dos dias,  
que moia sonhos e pesadelos, e iam em busca  
de outras terras, onde poderiam começar o novo...

Havia o orgulho atlante cada vez mais julgando  
entender as almas e as coisas, pensando-se soberano,  
mas sem ver o denso lago de tristeza onde a sociedade se erguia..  

Havia muita felicidade e muitos anseios de eternidade,  
mas maior volume de desespero a inundar os poros  
de cada um e que os levavam a exigir mais e mais.  

Como tudo acabou?  

O que tentaram elevar aos céus e falharam?  
Um desafio, feito com os sonhos infindos de imortalidade?  
A recriação da Vida, da Terra, dos elementos?  

Ou seria um novo ser, unindo a eterna insatisfação  
com tudo que existe e a capacidade de se espantar  
com uma noite de chuva ou o vôo de um pássaro?  

Algo foi tentado e falhou, algo ocorreu.  
Os livros não registram esse súbito desmoronar,  
As ruínas não o testemunham.  
As lendas não o contam.  

Nada sobrou, exceto almas irrequietas,  
as invisíveis e as visíveis,  
a olhar as estrelas e as flores,  
e a fazer planos.  

Talvez isso baste  
e tudo recomeçará um dia. 

                                             Felipe Coelho

http://omnis.if.ufrj.br/~coelho/livros.html
e
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Dança da chuva

A luz e sua ausência

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Os caminhos Tecido luminoso   Tardes de outono Despedida