O
planeta era diferente.
Havia
outros continentes,
banhados
por outros oceanos,
e
ilhas maravilhosas, esperando serem descobertas,
mas
que o Homem nunca conhecerá.
E
havia desertos onde hoje há florestas, serras imensas
contornadas
pelos ventos em lugares onde hoje moram peixes,
vastidões
de campinas floridas
onde o pólen era carregado por
abelhas
e que hoje são gélidos planaltos.
O
planeta era retalhado em muitos países,
alguns
governados pela palavra divina dos sacerdotes,
outros
pela tradição dos reis, por assembléias do povo
ou
pelas legiões a mando de ditadores.
Suas
fronteiras, traçadas por cultos diplomatas
e
por vitoriosos exércitos, deixavam rastros
de
tratados de paz e de cadáveres.
Havia
longas estradas ligando cidades,
habitadas
por gente chegada de planetas distantes,
e
atravessando campos, plantados havia muito
com
desconhecidas sementes.
E
a tudo dominavam seus habitantes,
querendo saber
porquês
e comos,
construindo indústrias e universidades,
movendo
rios e montanhas,
reescrevendo a
Natureza.
Mas
isso era só o início de suas angústias.
Havia
casais apaixonados que se viam refletidos no mar
quando
do alto de penhascos olhavam o por do sol
e
prometiam ser eternamente um só.
Havia
os que se libertavam da rotina dos dias,
que
moia sonhos e pesadelos, e iam em busca
de
outras terras, onde poderiam começar o novo...
Havia
o orgulho atlante cada vez mais julgando
entender
as almas e as coisas, pensando-se soberano,
mas
sem ver o denso lago de tristeza onde a sociedade se erguia..
Havia
muita felicidade e muitos anseios de eternidade,
mas
maior volume de desespero a inundar os poros
de
cada um e que os levavam a exigir mais e mais.
Como
tudo acabou?
O
que tentaram elevar aos céus e falharam?
Um
desafio, feito com os sonhos infindos de imortalidade?
A
recriação da Vida, da Terra, dos elementos?
Ou
seria um novo ser, unindo a eterna insatisfação
com
tudo que existe e a capacidade de se espantar
com
uma noite de chuva ou o vôo de um pássaro?
Algo
foi tentado e falhou, algo ocorreu.
Os
livros não registram esse súbito desmoronar,
As
ruínas não o testemunham.
As
lendas não o contam.
Nada
sobrou, exceto almas irrequietas,
as
invisíveis e as visíveis,
a
olhar as estrelas e as flores,
e
a fazer planos.
Talvez
isso baste
e
tudo recomeçará um dia.
Felipe Coelho
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