A iluminação (I)
Felipe Coelho  

 

     

O vento que inexistia,
a clareira vazia
- se não fosse o luar,
cortado pelas nuvens
e pelos ramos de figueira -
os tigres,
o silêncio
tudo era máscara
e um homem inquieto
perguntava o segredo. 

Ao seu redor
invisíveis ciclos
de colheitas e semeaduras,
de chuvas e secas,
de mortes e vidas,
de declínio e ascensão:
impérios, pessoas e seres
brotando e se exaurindo. 

Ao longe
invisíveis montanhas, gélidas imensidões
onde a terra não queria brotar
nem o homem erguer cidades. 

Ao longe
invisíveis oceanos, salgadas imensidões
apenas tolerando o homem e seus barcos,
visitando sempre as mesmas praias. 

Ao longe
apenas a ausência, a inocente crueldade
do gelo e da avalanche, das ondas e das tempestades
o mesmo ontem sendo sempre
o mesmo amanhã, o eterno fim
perfeito, onde tudo era para sempre. 

E dentro de si
o homem tinha a angústia do que perdera
e o sofrimento. Entre o eterno e o ciclo
onde poderia alguém ficar?

Felipe Coelho

***

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