A iluminação (II)
Felipe Coelho  

 

      

Numa noite,
depois de infinitas noite,
entendeu. 

Era possível libertar-se
da mudança e do tempo,
sair do ciclo do desejo e da dor,
amar sem paixão tudo o que vivia. 

Da eternidade das montanhas
lentamente geleiras derretiam,
na dádiva dos sagrados rios da vida. 

Da eternidade dos mares
surgia o presente dos ventos
a trazer chuvas e a guiar os navios. 

A eternidade,
liberta de todos os ciclos,
podia amar a vida,
pensou. 

Mas estariam mesmo libertas
as gélidas pedras,
se as suas torrentes cristalinas
vestiam suas bases com florestas
de rododendros e de ursos? 

Nelas as pedras sem vida
se partiam e raízes penetravam,
em suas fendas, avançava lento o mistério da vida. 

E os frios riachos se tornavam rios sagrados,
homens, arados e vales
deles bebiam, guerreiros
neles banhavam seus cavalos,
planícies se enchiam de verde
até os limites insondáveis
de praias e oceanos. 

Tudo sempre era uma
e a mesma coisa em aparências distintas,
o homem que tentava ver viu
que nunca nada ou ninguém sairia
do eterno ciclo. E a esperança
morreu em seus lábios. 

Era preciso
ter a liberdade da dor e do desejo,
esperar a inexistente calma do trabalho
que não se pergunta os porquês,
amar a tudo e a todos com a frieza
que nem os Himalaias não tinham. 

Sorriu então compassivo,
tinha atingido a Iluminação,
e mentindo disse:
-Sim,
podemos nos libertar do Desejo
e atingir a Paz

Felipe Coelho

***

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