Trevas e luz (III)
   Felipe Coelho

 

 

   

As árvores às vezes se despem
frente ao silêncio do inverno
e bordam submissas o chão
com suas folhas multicoloridas
enquanto as cores do mundo se calam
num coral de branco e cinza
e o ar é varrido por ventos tristes,
frios como a ausência. 

Nas salas quase vazias
a alma de calor das lareiras é então invocada,
madeiras devolvendo a luz do Sol
que beberam quando vivas,
seu fogo e sua luz afugentando
lembranças de crimes e fantasmas
para os cantos escuros e frios. 

Lá estarão os que foram emparedados vivos
e uivam com o vento, os assassinados em romances
(Agatha Cristie? Conan Doyle?)
racionalmente vítimas da sede do dinheiro,
britanicamente desconfortáveis se trazidos à fama,
lembranças de antepassados solenes em seus quadros,
lembranças que se adensam longe da luz
(areia movediça das sombras de corpos já desaparecidos?
folhas que a correnteza deposita nas margens e esquece?)
apenas para desaparecer com um toque no interruptor
e a explosão de luz das lâmpadas.

        
Felipe Coelho

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