Sérgio é filho de minha amiga Bety e foi através dela
que conheci sua história e sua arte. Sérgio é artista
nato e um vitorioso em todos os sentidos.São essas as
razões desta minha homenagem.
Aqui está a sua história, contada por ele mesmo.

Fiquei tetraplégico, aos 18 anos, depois de um mergulho
bem dado no fundo de uma piscina rasa na casa de um
conhecido meu na cidade onde morava, Matão / SP.
Fraturei a quarta, quinta e sexta vértebra cervical, C4,
C5 e C6, esmigalhou a quinta e a sexta... o que
causou-me de
imediato a perda de todos movimentos do corpo. Fiquei
ali, boiando na piscina por mais de um minuto a espera
de algum amigo perceber o que tinha acontecido e pelo
menos me virar para não começar a me afogar. Pronto, um
colega me virou e pedi a ele para chamar mais alguns
amigos para me tirarem d'água. Meu pai costumava brincar
que por causa do tempo que fiquei prendendo a respiração
debaixo d'água fiquei pentaplégico.. hehehe
Foram-se quase uma hora entre a fratura no pescoço até
os primeiros cuidados médicos. Aí depois vem todo aquele
procedimento do socorro inadequado, falta de equipamento
apropriado para lesão cervical, aliás, naquele tempo não
havia sequer carro de resgate na cidade de Matão.
Depois de tudo passado entre o socorro e o hospital,
pronto, agora estou bem seguro... que nada, fui direto
para Ribeirão Preto e lá somente depois de passar em
dois hospitais que me recusaram socorro por não haver
vagas, o motorista da ambulância parou no terceiro
(Hospital São Francisco) e de lá não saí por longos e
dolorosos 45 dias.
Tração cervical, operação para
reconstituição das vértebras, complicações pós
operatórias, volta pra casa, melhoras e por aí vai até
os dias de hoje. Isso já fazem quase treze anos,
me acidentei 16 de fevereiro de 1991.
Acho que o sonho de todo lesado medular é ir fazer sua
reabilitação no Sarah de Brasília, e lá fui eu. Fui para
o Sarah de Brasília, e com toda aquela expectativa de
uma melhora nos movimentos que todos que vão para lá
têm. Não recuperei nenhum movimento, mas como
aprendizado e re-aprender a entender como seria meu
corpo de ali em diante foi muito bom. Hoje mesmo após 13
anos de lesão continuo com o mesmo tônus muscular e
força do começo. A única recomendação que tirei proveito
de lá foi a de beber muita água para cuidar dos rins e
preservar meu corpo sempre são, para não atrofiar e se
algum dia surgisse alguma cirurgia que pudesse tirar
proveito meu corpo estaria em dia para fazê-la.
Foram 3 meses que fiquei internado aprendendo a escrever
e digitar com adaptações, fazendo muita fisioterapia,
passando pela psicologia, enfim, me adaptando a uma nova
vida.
Lembro quando no primeiro dia de internado, estava lá
triste, sozinho na enfermaria e uma das enfermeiras veio
falar comigo e depois de nossa conversa, ela me disse o
seguinte:
Sergio, você vai ter saudades daqui.
Falei: Imagina, saudades daqui? Tá louca é?
Mas quando estava de saída, com viagem de volta marcada
para casa é que aquelas palavras tiveram peso, entendi
que o que a enfermeira me falou nada mais eram o medo,
receio de enfrentar o mundão lá fora.
Expectativas, medos, como enfrentaria? como seria de
agora em diante? Como lidar com a frustração de amigos e
familiares e até nossa mesmo, de voltar recuperado para
casa, saindo do avião com direito a faixas e balões de
seja bem-vindo, receber beijos e abraços felizes de
todos, é, não é fácil né?
Chegando em casa vem os primeiros cuidados, ou seja, as
primeiras providências de adquirir cadeira de rodas,
colchão anti-escaras, procurar fisioterapia, adaptar
portas e locais da casa onde iremos circular, etc.
E nisso, no meu caso, deixei o resto da vida de lado,
meu maior erro foi ter dado prioridade total à minha
recuperação e com isso larguei o término da escola,
planos de fazer faculdade, não saia de casa por
vergonha, acredita?
Vivia, respirava, só pensava em ficar bom, andar
novamente.
Com isso foram passando os anos... até que em 1994
entrei para um curso de pintura.
Confesso que fui quase forçado pela minha mãe, ou eu ia
ou eu ia, entende?
Depois de algumas farpas trocadas entre minha mãe e a
professora por ela não querer me dar aula por não estar
habilitada a lidar com deficientes,
entramos em acordo de pelo menos ela tentar uma vez, e
se desse certo eu continuaria nas aulas. Não é que
gostei da coisa? Até que levava um pouco de jeito pra
coisa e continuo com minhas pinceladas até hoje, que me
rendem uma grana legal pra me manter.
Mas foi só isso, não continuei com os estudos, não
sonhava, a vida era só esperar, esperar, esperar por um
milagre. E fui vivendo assim...
Até que em 1999 ganhei um computador usado da minha tia,
um 486, que fui logo aprendendo a lidar com o
poderosíssimo windows 3.1, hehehe
Dali há pouco mais de três meses comecei a entrar na
internet e descobrir um novo mundo, um mundo que eu
dentro do meu mundinho fechado numa cidadezinha de
interior julgava totalmente impossível.
Comecei a entrar em sites, chats, mandar e receber mails,
fazer amigos de todas partes do mundo, e com isso fui
descobrindo um novo horizonte.
Horizonte esse que se abriu muito mais para mim depois
que conheci a Lista Vital, hoje Porta de Acesso
(
www.portadeacesso.com
)
Desde quando aqui entrei fiz muitos amigos, participei
de encontros vitais, voltei a estudar e conclui o ensino
médio com incentivo da amiga Fernanda,
cresci muito com o convívio e com as histórias de vida
dos VITAIS.
Foi aí que comecei a acreditar que podia levar uma vida
normal, em uma cadeira de rodas, mas normal, com estudo,
viagens, relacionamentos afetivos, sexo , trabalho,
casar, ter filhos enfim viver , nada mais normal não é?
Hoje tô levando uma vida que jamais sonhei há 13 anos
atrás, mudei de Matão, interior de São Paulo, com pouco
mais de 70.000 habitantes, para Curitiba.
Estou mais independente, ganhei também uma cadeira
motorizada e já perdi o medo de sair à rua... agora saio
e vou pra tudo que é lado, fisioterapia, fazer compras,
trabalhar, dar aula de pintura, namorar a Lênia, hehehe...
vou ao Correios postar cartas, até flores vou sozinho
escolher e mandar.
Nossa como escrevi..hehehe, em outro momento falo das
aventuras e conquistas que estou tendo nos últimos
tempos.
Mas o que quero deixar mesmo para vocês, é um grande
abraço e que tem momentos que achamos que tudo não
adianta, mas com ajuda e FÉ em Deus tudo podemos,
certo?
Abraço desse novo amigo,
SergioTorretta