Depois de alguns dias de ausência, fui
hoje de manhã ao parque, levando o coração transbordante de alegria. Lá
estavam minhas amigas árvores, balançando os galhos sob o céu azul e o
sol brilhante, exibindo os primeiros brotos, como anunciando o
final deste inverno esquisito. A "estranha", para minha surpresa,
mostrava três botões que devem abrir na próxima semana. Suas flores
brancas são lindas e raras, só aparecendo quando os galhos estão
totalmente despidos de folhas. Mais adiante, cumprimentei o velho amigo
eucalipto: forte, altivo e sábio. Dei-lhe um abraço saudoso e sentei-me
aos seus pés. Como se recitasse uma poesia de Lorca, ele perguntou-me:
- Porque trazes o coração em festa?
Eu, recordando o Pássaro Encantado, do
Rubem Alves, contei-lhe das coisas que trazia no coração: os cheiros, os
sons e as cores de outros bosques, de outras águas, de outras terras.
Disse que dancei a melodia de outras aragens, sabendo que aqueles que eu
amo também dançavam comigo sob outros céus. Falei de garças e araras, de
lontras e sagüis, tartarugas e jacarés, de casas antigas e pessoas
amáveis...
Então foi minha vez de perguntar-lhe
as novidades. Ele contou-me que o vento do nordeste trouxe-lhe a notícia
que a querida palmeira do Marrocos está doente (a palmeira que aprendi a
amar mesmo sem conhecê-la, porque o amor não depende da presença: o amor
é existência). Aconcheguei-me ao tronco do amigo, comungando sentimentos
e lágrimas.
Com o céu e a dor no coração, sob a
luz brilhante do sol, enviamos através do vento sudoeste uma prece de
amor e fé para a bem amada palmeira, confiantes que, brevemente, outros
ventos nos trarão boas novas.
Marisa.
