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Vim morar
em São Paulo em 1977. Trouxe as malas e os sonhos para a cidade dos
contrastes: dias quentes e noites frias, pessoas frias e gente
amiga. Vivo até hoje essa relação de amor e ódio. Amo a vida que
aqui pulsa mais forte e me revolta ver as cenas de destruição física
e moral com que às vezes me deparo. Aprendi, porém a conviver com a
dualidade e os contrastes. Aqui encontrei trabalho, amigos,
constituí família e finquei profundas raízes. Muitas vezes minha
alma se eleva até os mais altos prédios, quase chegando às nuvens.
Lá em cima abro a mala dos sonhos e viajo uma cidade serena, sem
traumas e sem carências, um lugar de paz e natureza, flores e almas
puras. É quando amo esta terra. Mas o descer dos sonhos é triste, a
realidade sufoca. A alma se encolhe e volta aos pés, na busca por
caminhos mais suaves.
Nesses
altos e baixos, uma dessas manhãs me surpreende. Abro o portão e vou
conferir a árvore que plantei na calçada. Um arbusto, ainda, que
precisa de cuidados para sobreviver às tempestades, aos animais e ao
bicho-homem. As folhas estão verdinhas, tem ramos novos despontando.
E vejo algo estranho, semelhante a um ninho de pássaros. Um ninho,
nessa arvorezinha minúscula, que mal pode se cuidar sozinha? Como
conseguirá abrigar ninho, ovos, pássaros? Enquanto pensava, o
beija-flor se aproximou receoso, com um raminho seco no bico.
Afasto-me para que ele se sinta tranqüilo e confirmo minha suspeita:
é mesmo um ninho de beija-flores! Saio discretamente, lamentando o
local escolhido pelos passarinhos: ali não há condições para se
procriar!
Os
beija-flores, porém, não pensavam como eu. Construíram seu ninho com
tenacidade e apuro. Via-os a cada manhã e a cada final de tarde,
olhava-os com respeito e ficamos amigos. Já não se assustavam com a
minha presença. Todas as manhãs me saudavam com seu canto que só
cessava com minha chegada até a arvorezinha para inspecionar o
ninho. Numa dessas manhãs vi o primeiro ovo. Depois o segundo, e até
um terceiro. E a mamãe-beija-flor tranqüilamente chocava seus ovos
enquanto o papai dava os últimos retoques no ninho.
Chegou o
dia do nascimento.Os beija-flores fizeram tanta algazarra de manhã
que antecipei minha visita: lá estavam os três filhotinhos –
pelados, sem sequer uma penugem, os biquinhos abertos esperando o
alimento trazido em seguida pelo pai. Meu senso de responsabilidade
aumentou: tinha que proteger a árvore, os pássaros e sua cria. Meu
maior medo eram os gatos que passeavam a noite pelas ruas e não
perdiam qualquer chance de alimentar-se.
Porém o
perigo era maior: a tempestade! Chegou numa noite, de surpresa. Ouvi
os trovões, o assobio do vento e já os grossos pingos batendo no
chão, na cobertura da garagem, nas plantas, nas árvores. Não tive
tempo de fazer a única coisa que me passou pela cabeça: cobrir a
árvore com lona plástica. A chuva caía cada vez mais forte e na
mesma proporção aumentava minha angústia. Acabei dormindo.
Na manhã
seguinte pulei da cama com um único pensamento: os filhotes
sobreviveram? Corri até a arvorezinha e vi o ninho no mesmo ramo
frágil onde fora feito. Vi também a mãe-beija-flor placidamente
acomodada no ninho. Acerquei-me e pude ver a cabecinha de um
filhote, depois o outro e o outro...Meu coração sorriu: os pássaros
e a árvore foram os vencedores daquela noite. Cumprimentei-os,
orgulhosa, pela coragem e resistência. Com essa vontade de viver e
vencer, os filhotes foram crescendo. Ganharam penugem, depois as
primeiras penas. Ensaiaram os primeiros vôos. Sabia que estavam se
preparando para partir, já sentia a despedida. Quando voltava para
casa numa tarde encontrei o ninho vazio. As “crianças” já haviam
partido. Ficamos eu e a arvorezinha, testemunhas de uma vitória
improvável, mas que acontecera. Num gesto de carinho e agradecimento
pousei meus dedos suavemente pelos ramos do arbusto. Fora também
vitorioso!
Hoje,
decorrido algum tempo, lembrar esse acontecimento me dá forças. A
cidade continua me assustando, me impondo limites, mas quando sinto
que vou fraquejar, que posso desistir, me visto de beija-flor e
encaro as tempestades.
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