FOME

                          Neusa (Neusimar)

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Na maldita pressa que nos invade todos os dias, não observamos detalhes tão ricos que se apresentam escancaradamente aos nossos olhos. Claro que nem sempre é culpa apenas da pressa. Muitas vezes temos medo de olhar, outras nos recusamos a ver cenas tristes ou chocantes. É mais fácil virar o rosto para o outro lado. Algumas ruas de São Paulo apresentam contrastes violentos. Basta andar devagar, ter os olhos atentos e querer ver. Fiz isso um dia desses, com o objetivo de tão somente enxergar o que a pressa nem sempre me deixa perceber.  Caminhei cerca de dois quilômetros olhando as pessoas e os fatos com atenção. As senhoras e os senhores da alta classe desciam dos seus carros rapidamente, entravam numa butique ou num restaurante sem sequer olhar para os lados. O veículo ficava com o manobrista, que também só tinha olhos para as coisas da sua função. Na mesma calçada onde desciam as apressadas e elegantes senhoras e também passavam a passos largos os executivos engravatados, muitos mendigos, sentados, pediam esmolas: mulheres com crianças ao colo, maltrapilhas e maltratadas, com seu olhar de súplica; homens rotos e esfarrapados, com seu olhar de alheamento e a mão estendida aos passantes; um garoto esquálido, que tocava no braço de quem fosse possível, pedia um real para o remédio. As pessoas passavam por eles indiferentes, virando o rosto como a dizer que não viam ou que não era nada com elas. Fui também abordada por todos eles. Comprei alguns pacotes de biscoitos na loja mais próxima e refiz o caminho, entregando a cada mendigo um pouco do que poderia melhorar seu dia. Claro que não resolveria o problema, mas se todos se abstivessem de sequer olhar, o que seria dessa gente excluída, sem presente e sem futuro? Estava pensando nisso quando meus olhos foram atraídos por algo mais chocante ainda: um mendigo, dos mais esfarrapados e sujos que já vira, debruçava-se sobre um cesto de lixo pregado ao poste de luz.  Não só se debruçava, praticamente entrava dentro do cesto. Parei e fiquei observando à distância: o homem revirava o lixo, ia pegando restos de comida e levando à boca. Fui acompanhando sua viagem, lixo por lixo. Comia tudo que pudesse ser levado à boca. Lambia os papéis e os palitos dos sorvetes que outra pessoa já chupara, fazendo o mesmo com as embalagens de outros alimentos; bebia as sobras de café dos copinhos descartáveis e o resto das latinhas de refrigerantes, tudo com a avidez dos famintos de longa data. Não me contive e o abordei. Perguntei se aceitava um pacote de bolachas. Olhou-me incrédulo, sem nada dizer, mas estendeu a mão para receber a oferta. Perguntei também porque não pedia comida ao invés de revirar o lixo à procura de sobras. Com muita dignidade e um certo orgulho na voz ele me disse, apontando os mendigos sentados na calçada: - assim eu faria concorrência; eles precisam mais de ajuda do que eu!

A vida continuou: os mendigos da calçada estendendo suas mãos, o homem dos cestos de lixo prosseguindo em sua jornada. E as outras pessoas, privilegiadas pela sorte, continuaram a transitar pela calçada, indiferentes ao drama tão próximo, virando o rosto para a fome e a miséria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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