Quando nasci, nenhum anjo me disse para "ser gauche" na vida. Nem me
apareceu um "chato de um querubim" para comunicar-me, diligentemente, que
eu estaria fadada a ser errada vida a fora. É o que dá não ser Drummond
ou Chico Buarque de Hollanda. Ser, apenas, uma mulher comum. Fato é que,
até o ano de 2004, com 42 anos anos, nunca consegui viver em linha reta -
nem mesmo sóbria de ilusões, sonhos, fantasias e pensamentos.
Ninguém me alertou que trilharia estradas tortuosas, em alguns
momentos quase marginais. Nem que esses (des)caminhos da vida seriam
acidentados, com trechos de aclives íngremes e de declives sinuosos. Sem
esquecer os desvios provocados por avalanches existenciais e as
inevitáveis freadas emocionais de arrumação. Um perigoso só. Mas, como
atesta a sabedoria do povo, a mulher que andou na linha, o trem matou. E
eu estou aqui, vivinha da Silva.
Aventurei-me assim pela existência: às cegas, tateando. Mais abusada e
temerária que intrépida e corajosa. Por vezes, impulsionada pelo faro;
outras pelo instinto, a maior parte do tempo pela emoção. Hoje, quando me
perguntam quem sou, nem pisco para responder: mãe (de um lindíssimo casal
de filhos: Laura, fará 10 anos em dezembro; Victor fez 7 em junho
passado); solteira oficialmente e descasada oficiosamente; jornalista
episódica; artesã por hobby e herança genética; escritora por compulsão e
mulher - quando sobra tempo. Sempre sobra. Afinal, nem só de pão e
obrigação vive uma mulher. Um tanto de carne e circo são fundamentais na
vida.
Sim, sou jornalista há 22 anos. Avisei que a perfeição por mim passou
lotada e não parou no ponto. Sorry. Porque, perdoem-me os mais românticos,
ser jornalista nesse país, nos dias de hoje, é tão somente saber
administrar - com as bênçãos dessa nossa sociedade hipócrita - um desvio
de caráter: o interesse pela vida alheia. No popular, o gosto pela fofoca.
Como em toda profissão há, ainda, os que dela fazem uma arte.
Nisso e disso sobrevivi, direta e indiretamente, dos 22 aos 38 anos.
Até que no final de 2.000, recém-chegada de Brasília, após 14 anos de
auto-exílio, abandonei de vez as redações. Digitei meu ponto final no
terminal da Editoria de Política do jornal O Globo, onde trabalhava no
fechamento da edição.
Sem alardes, despedidas ou brigas. Apenas coloquei a bolsa no ombro,
desejei boa noite a todos e virei as costas a uma etapa da minha vida.
Desde então, dedico-me exclusivamente à escrever. E ler. E escrever. Pois
que escrever é bem mais que inspiração. É compulsão da alma. É necessidade
do espírito. É imposição do Ser. E só os que padecem desse mal
compreendem o quão imprescindível é transmutar em palavras o que nos vai
por dentro. Fiz desse mal, que é bem, meu prazer, meu ofício, minha
profissão de fé. E la vie en rose....
*Simone Salles é jornalista e escritora.
Contatos pelo e-mail:
simone-salles@uol.com.br
*Midi: La Vie em Rose, gravação original, Edith Piaff.
* Texto Protegido pela Lei de Direitos Autorais.