Fazendo jus à herança genética
Simone
Salles
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Não
tivesse sido escrito há 1.500 anos, eu poderia jurar que era um plágio
de Águas de Março, do nosso Tom Jobim. Mas não. O poema abaixo é uma
composição do orador e poeta Quss Ibn-Sa'idah, ícone da literatura
árabe. Ele descreve o mundo de forma majestosa e incita seus
companheiros de tribo a refletir sobre a efêmera condição humana, sua
transitoriedade, sujeita sempre às contingências da vida.
Esse é o poema, sem título:
Noite
escura, um dia de paz
O céu, um
assombro, espaços siderais
Estrelas
brilhando, mares a se agitar
Montes
assentados, terra a atapetar
O que vive,
morrendo; o que morre, findando
Vai vir,
virá, o a-passar, passará
No céu,
sinais; na terra, lição
Causa,
porquê, explicação
Gente vai e não
volta, qual a razão?
Sono
profundo?, satisfação?
Onde nossos
primeiros? onde pais e avós?
Onde o grande
poder dos fortes faraós?
Quss
Inb-Sa'idah
Como descendente (mesmo que distante) de árabes, assunto desperta meu interesse e curiosidade. O filósofo alemão Martin Heidegger, uma das grandes influências do Existencialismo, dedicou parte de sua obra ao estudo do que chamava ele de "enclausuramento do ser humano". Para Heidegger (1889-1976) não apenas a linguagem está à serviço do pensamento, como também o pensamento à serviço da linguagem.
Ao contrário dos
ocidentais, com seus discursos longos e intrincados, o povo árabe
pensa-fala numa sucessão de frases nominais. Rápidas. Cortantes. São
flashs, imagens concretas. A semelhança entre os versos de Jobim e os
Ibn-Sa'idah está, justamente, nesse tipo de linguagem-pensamento. E é
objeto de estudos acadêmicos em diversas universidades no país.
A coincidência fica
mais evidente no final da canção, quando Tom e Elis - no que aparenta
ser uma brincadeira, revelada pelo som risonho de Elis ao cantar -
pronunciam somente as últimas sílabas de cada palavra. Mesmo sem essa
redução, a própria estrutura do poema cantado de Jobim remete à forma
árabe de pensar-falar.
Os versos são
frases-imagens rápidas. Cortes cinematográficos. Pode-se perfeitamente
cantar o poema de Quss Ibn-Sa'idah com a melodia de Águas de Março. Mas
experimente, primeiro, cantar Águas de Março à moda árabe. Basta
suprimir os verbos. Depois, cantem os versos de Quss Ibn-Sa'idah com a
melodia de Jobim. Comprovem a semelhança.
Águas de Março
Pau, pedra Fim
, caminho
Resto, toco Pouco
sozinho
Caco,
vidro A vida , o sol
A noite, a morte
O laço, o anzol
Peroba, campo Nó, madeira
Caingá, candeia
Matita Pereira
Mistério profundo
Queira, não queira
Vento,
ventando Fim, ladeira
A viga,
o vão Festa, cumeeira
A chuva,
chovendo Conversa ribeira
Águas de
março Fim, canseira
O pé, o
chão Marcha estradeira
Passarinho,
mão Pedra, atiradeira
Ave,
céu Ave, chão
Regato, fonte Pedaço, pão
Fundo,
poço Fim, caminho
Rosto, desgosto
Pouco sozinho
Estrepe,
prego Ponta, ponto
Pingo,
pingando Conta, conto
Peixe,
gesto Prata brilhando
Luz,
manhã Tijolo chegando
Lenha,
dia Fim, picada
Garrafa,
cana Estilhaço, estrada
Projeto,
casa Corpo, cama
Carro enguiçado
Lama, lama
Passo,
ponte Sapo, rã
Resto, mato
Luz, manhã
Águas,
março Fechando verão
Promessas,
vida Teu coração
Cobra,
pau João, José
Águas,
março Fechando verão
Promessas,
vida Teu coração
Pau, pedra
Fim, caminho
Resto, toco
Pouco sozinho
Passo, ponte
Sapo, rã
Belo
horizonte Febre terçã
Tom
Jobim
Simone Salles é jornalista e escritora.
Contatos pelo e-mail:
simone-salles@uol.com.br
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