A imagem
reflete-se no espelho
que reflete um outro espelho:
uma face comum,
multiplicada,
invertida,
revertida.
Mais nada.
Um
olho é velho e calmo como a lua.
O outro, que sob a pálpebra apenas se insinua,
esconde o medo e o espanto
de caça acuada.
Uma das mãos faz a comida, a cama
e lava e passa e escreve.
A outra, em gesto breve,
acena, entediada.
A mesma boca que às vezes salmodia,
por pura rebeldia
morde a fruta proibida e desejada.
Uma imagem descansa;
a outra tem pressa
de retomar a jornada.
E os pés, que carregam o pó
de mil estradas
percorridas em direção à meta
ou sem destino algum,
num ponto da viagem
esbarram no espelho
que reflete outro espelho
e a imagem
multiplicada.