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"Neste país, paraíso triste, de séculos em séculos acontecem milagres.
A Sophia foi um dos milagres acontecidos à nossa alma. Visionária do visível, reinventou uma sonoridade límpida para os nomes que damos às coisas, o mar, a luz, o fogo, a cal dos quartos onde se cresceu só, a justiça, a liberdade. Durante anos levantou a cabeça das nossas crianças para o assombro.
Fê-lo por uma conjunção muito difícil de encontrar no ser português: a paixão da claridade e a capacidade de confronto com o caos. Acho que foi essa a essência da sua vida e da sua obra: usar o gume da palavra clara e justa contra o horror e a espessura opaca do mundo que não cessaram nunca de a acossar. Perdemos também isso e a sua incitação a uma alegria por vezes feroz; indomável como a das grandes crianças. Perdemos a menina do mar alto.
Mas acho que foi Sophia quem escreveu o seu próprio epitáfio nesta Ode à Maneira de Horácio. Fiquemos com a sua voz, o claro sopro que é o seu legado:
"Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância, o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada,
À beira da tenda, partilhou o vinho e a vida"
Texto que a escritora Maria Velho da Costa leu na missa para Sophia de Mello Breyner
Andresen, na Igreja da Graça, Lisboa
Segunda-feira, 05 de Julho de 2004

BIOGRAFIA
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Porto, 1919-2004
Desde o livro de estreia,
Poesia, de 1944, Sophia de Mello Breyner Andresen anunciava as principais
características da sua arte poética: um rigor clássico traduzido numa
enorme simplicidade de linguagem para dizer a aliança do ser com o mundo
através de imagens nítidas como a terra, o sol e o mar. Em O Livro VI,
Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores em 1964, estas
qualidades estão presentes em toda a sua fulgurância, a par de um
amadurecimento formal que levou Eduardo Lourenço a escrever: “Poesia de
precoce e hoje de matura sabedoria, a de Sophia foi desde o início a de uma
busca no espelho do mundo e num mundo de evidências aurorais, embora por
isso mesmo ocultas, a evidência elementar do vento, da bruma, do mar, do
jardim exposto e secreto, com a sua divina e opaca linguagem à espera que o
poeta a descubra para aceder do seu próprio silêncio à revelação da sua
íntima e indevassável evidência”. A sua busca, indiferente a escolas,
correntes ou modas, (“sempre a poesia foi para mim uma perseguição do
real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda de uma coisa, um círculo
onde o pássaro do real fica preso”), prossegue nas obras seguintes:
Geografia (1967), Dual (1972), O Nome das Coisas (1977, Prémio Teixeira de
Pascoaes), Navegações (1983), Ilhas (1989)... É também autora de textos
em prosa, nomeadamente Contos Exemplares (1962), Histórias da Terra e do Mar
e os contos para crianças A menina do Mar e O Cavalheiro da Dinamarca.
Nascida no Porto, de origem dinamarquesa pelo lado paterno e educada num meio
aristocrático, esteve muito cedo ligada à luta antifascista e, a seguir ao
25 de Abril, foi deputada à Assembleia Constituinte. Os seus principais
poemas de resistência política foram reunidos na antologia Grades (1970),
sem prejuízo de a aspiração à liberdade e à justiça impregnarem toda a
sua obra, como uma ética poética que lhe fosse natural. Viu a sua carreira
consagrada com o Prémio Camões, em 1999. Faleceu em 2 de Julho de 2004.
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