Poesias do livro:
Dia do mar - II e III- 1947

 

 

II

 É por ti

É por ti que se enfeita e se consome,
Desgrenhada e florida, a Primavera.
É por ti que a noite chama e espera

És tu quem anuncia o poente nas estradas.
E o vento torcendo as árvores desfolhadas
Canta e grita que tu vais chegar.


 Endymion

Por ti lutavam deuses desumanos.
E eu vi-te numa praia abandonado
À luz, e pelos ventos destroçado,
E os teus membros rolaram nos oceanos.


 Dionysos

Entre as árvores escuras e caladas
O céu vermelho arde,
E nascido da secreta cor da tarde
Dionysos passa na poeira das estradas.

A abundância dos frutos de Setembro
Habita a sua face e cada membro
Tem essa perfeição vermelha e plena,
Essa glória ardente e serena
Que distinguia os deuses dos mortais.


Os deuses

Nasceram como um fruto da paisagem.
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.


Alexandre da Macedônia

A perfeição, a eternidade, a plenitude
Escorriam da sagrada juventude
De teus membros.

A luz bbailava em roda dos teus passos
E a ardente palidez da tua divindade
Ergueu-se da pureza dos espaços.

Estreitamente os teus dedos
Para lá das vagas ânsias, incertezas e segredos
Prendiam os dedos da sorte.

E o destino que em nós é caos e luto,
Era em ti verdade e harmonia
CVaminho puro e absoluto.


Sobre um desenho de Miguel Ângelo

Do caos humano, confuso e hostil,
Sobe milagroso o teu perfil
O mais claro ensinamento.

O olhar procura
O mais profundo fundo
O mais longínquo além.
O nariz sentr e respira
Cada exalação da vida 
E a boca renuncia.


 O anjo

O Anjo que em meu redor passa e me espia,
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me cantando no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.


III

Navegação

Distância da distância derivada 
Aparição do mundo: a terra escorre 
Pelos olhos que a vêem revelada
E atrás um outro longe imenso morre.


 Tristão e Isolda

Sobre o mar de Setembro velado de bruma
O sol velado desce
Impregnando de oiro a espuma
Onde a mais vasta aventura florece.

Tristão e Isolda que eu sempre vi passar
Num fundo de horizontes marítimos
Trespassados como o mar
Pela fatalidade fantástica dos ritmos
Caminham na agonia desta tarde
Onde uma ânsia irmã da sua arde.

Tristão e Isolda que como o Outono,
Rolando de abandono em abandono,
Traziam em si suspensa
Indizivelmente a presença
Extasiada da morte.


Painéis do Infante

Príncipes do silêncio ó taciturnos
Por quem chamava nos longínquos céus nocturnos
A verdade das estrelas nunca vistas.

A vossa face é a face dos elementos,
Solitária como o mar e como os montes
Vinda do fundo de tudo como as fontes
Dura e pura como os ventos.


 Gruta de Camões

Dentro de mim sobe a imagem dessa gruta
Cujo silêncio ainda escuta
Os teus gestos e os teus passos.

Aí, diante do mar como tu transbordante
De confissão e segredo.
Choraste a face pura
Das brancas amadas
Mortas tão cedo.


Navio Naufragado

Vinha de um mundo
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.

É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração. 

Em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes. 

E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves dos cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos de videntes.


 Goyesca

Um infinito ardor
Quase triste os veste,
Semelhante ao sabor
Que tem à noite o vento leste.

Bailam na doçura amarga
Da tarde brilhante e densa
E cada gesto que se alarga
Tem a morte em si suspensa.


 Estranha noite

Estranha noite velada, 
Sem estrelas e sem lua. 
Em cuja bruma recua 
Fantasma de si mesma cada imagem 

Jaz em ruínas a paisagem, 
A dissolução habita cada linha. 
Enorme, lenta e vaga 
A noite ferozmente apaga 
Tudo quanto eu era e quanto eu tinha 

E mais silenciosa do que um lago, 
Sobre a agonia desse mundo vago, 
A morte dança 
E em seu redor tudo recua 
Sem força e sem esperança. 

Tudo o que era certo se dissolve; 
O mar e praia tudo se resolve 
Na mesma solidão eterna e nua. 


O primeiro homem 

Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.

Criados à medida dos elementos 
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Reflectindo o mundo,
E o eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços.