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Segunda parte
I
Coral
Ia e vinha
E a cada coisa perguntava
Que nome tinha.
Assassinato de Simoneta Vespucci
Homens
No perfil agudo dos quartos
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.
Vê como as espadas nascem evidentes
SEm que ninguém as erguesse - de repente.
Vê como os gestos se esculpem
Em geometrias exactas do destino.
Vê como os homens se tornam animais
E como os animais se tornam anjos
E um só irrompe e faz um lírio de si mesmo.
Vê como pairam longamente os olhos
Cheios de liquidez, cheios de mágoa
DE uma mulher nos seus cabelos estrangulada.
E todo o quarto jaz abandonado
Cheio de horror e cheio de desordem.
E as portas ficam abertas
Abertas para os caminhos
Por onde os homens fogem,
No silêncio agudo dos espaços,
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.
Caminhava fito
Caminhava fito,
Sobre o seu ombro esquerdo
Um pássaro nocturno e verde não cantava,
Obscuras correntes,
Desconhecidas direcções do vento,
Secreto curso de estrelas invisíveis.
Tu e eu
Tu e eu vamos
No fundo do mar
Absortos e correntes e desfeitos.
Transparente
À tona do teu rosto vêm peixes
E vem comigo
Morto, morto, morto,
Morto em cada imagem.
Pã
Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.
Intervalo
Eu só quero o silêncio neste porto
Do mar vermelho, do mar morto
Perdida, baloiçar
No ritmo das águas cheias
Quero ficar sozinha neste espanto
Dum tempo que perdeu a sua forma,
Quero ficar sozinha nesta tarde
Em que as árvores verdes me abandonam.
Ouve
Ouve que estranhos pássaros de noite
Tenho defronte da janela:
Pássaros de gritos sobreagudos e selvagens
O peito cor de aurora, o bico roxo,
Falam-se de noite, trazem
Dos abismos da noite lenta e quieta
Palavras estridentes e cruéis.
Cravam no luar as suas garras
E a respiração do terror desce
Das suas asas pesadas.
Neste dia de Mar e Nevoeiro
Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto
São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses
Aquelas aves que tinham
uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse
Quero
Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.
Nardo
Nardo
Pesado e denso,
Opaco e branco,
Feito
De obscura respiração
E de nocturno embalo.
Luminosos os dias
Luminosos os dias abolidos
Quando o meio-dia inclinava a sombra das colunas
E o azul do céu tomava em si a terra
Apaziguada no murmúrio
Das folhagens e dos deuses.
Ifigênia
Ifigênia levada em sacrifício,
Entre os agudos gritos dos que achoram,
Serenamente caminha com a luz,
E o seu rosto voltado para o vento,
Como a victória à proa de um navio,
Intacto destrói todo o desastre.
Nos últimos terraços
Nos últimos terraços dos espaços
Sobre os ventos imóveis e calados
Dorme.
Nem a Primavera derramada
Nem o terror e o caos que a Terra gera
Nem a sombra vermelha dos corpos mutilados
Atravessam
As barreiras de silêncio que o separam.
Tem o rosto voltado ao infinito
Um rosto perfeito de traços imutáveis
Nem frio, nem calor, nem ar, nem água
O alimentam.
Respiram unicamemte o seu segredo
O seu segredo secreto para sempre.
E duas fontes correm de seus olhos fechados.
Morta
Morta,
como és clara,
que frescura ficou entre os teus dedos ...
És uma fonte,
com pedras brancas no fundo,
és uma fonte que de noite canta
e silenciosamente
vêm peixes de prata à tona de água.
Morta como és clara,
e florida ...
És a brisa
que num gesto de adeus passa nas folhas,
és a brisa que leva os perfumes e os entorna,
és os passos leves da brisa
quando nas ruas não passa mais ninguém!
És um ramo de tília onde o silêncio floresce,
és um lago onde as imagens se inquietam,
és a secreta nostalgia duma festa
que nos jardins murmura.
Cantando
com as mãos deslizando pelos muros
passas colhendo
o sangue vermelho e maduro das amoras
vais e vens
solitária e transparente
e a memória das coisas te acompanha.
Morta como és clara,
e perdida!
És a meia-noite da noite,
és a varanda voltada para o vento,
és uma pena solitária e lisa,
as sombras recomeçam a dançar,
o perfume das algas enche o ar
e as ramagens encostam-se às janelas:
suaves cabelos de pena tem a brisa.
Sozinha passas no fim das avenidas.
Não mostras o teu rosto,
passas de costas com um vestido branco.
Como tu és leve e doce como um sono!
O sopro da noite enche-se de angústia
e de mim sobem palavras solitárias:
és o perfume de infância que há nos campos,
és a pena de infância que há na noite.
Subitamente
agarro perco a forma do teu rosto:
Como tu és fresca!
Passas e dos teus dedos correm fontes.
Como tu és leve,
mais leve que uma dança!
Mal chegaste, mal voltaste, mal te vi
já no fundo dos caminhos te extinguiste:
areia lisa e branca que nenhum passo pisa
pena lisa
angústia fonte fresca e brisa.

II
Longe e nítidos
Longe e nítidos caminham os caminhos
Duma aventura perdida.
Próxima a brisa
Abre-se no ar.
É o azul e o verde e o fresco duma idade
Morta mas que regressa
Com os seus claros cavalos de cristal
Que se vão esbarrar no horizonte.
Dai-me o sol
Dai-me o sol das águas azuis e das esferas
Quando o mundo está cheio de novas esculturas
E as ondas inclinando o colo marram
Como unicórnios brancos.
Tu dormes
Tu dormes embalado nos rochedos
E aos meus ouvidos vem falar o vento
Escuto, busco, chamo e não respondes,
E todo o mundo se tornou fantasma.
Estou fechada, seuspensa, prisioneira
Queria voltar para fora, para o dia
Ressurgir, respirar, tornar a ver,
Mas todo o mundo se tornou fantasma.
E a voz do mar encheu o céu e a terra
Uma voz que está cheia e que se quebra
E nunca mais acaba.
Pássaros brancos cortam as janelas,
Anémonas cintilam nos rochedos:
Terror de estar sozinha e de escutar
Com este tempo morto entre os meus dedos.
Intervalo II
Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.
Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.
Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.
Um dia em que se possa não saber.
Praia
Os pinheiros gemem quando passa o vento
O sol bate no chão e as pedras ardem.
Longe caminham os deuses fantásticos do mar
Brancos de sal e brilhantes como peixes.
Pássaros selvagens de repente,
Atirados contra a luz como pedradas,
Sobem e morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.
As ondas marram quebrando contra a luz
A sua fronte ornada de colunas.
E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro
Baloiça nos pinheiros.
Barcos
Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Seus olhos de estátua
E a curva do seu bico
Rói a solidão.
Pirata
Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.
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