Poesias do livro:
Coral - 2ª parte - 1950 -  III e IV

 

 

Segunda parte 
III


 Espera-me

Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:
Pois por mais longos que sejam os caminhos
Eu regresso


A raiz da paisagem

A raiz da paisagem foi cortada.
Tudo flutua ausente dividido,
Tudo flutua sem nome e sem ruído.


Ó poesia - quanto te pedi

Ó poesia - quanto te pedi!
Terra de ninguém é onde eu vivo
E não sei quem sou - eu que não morri
Quando o rei foi morto e o reino dividido.


Naquelas noites 

Naquelas noites,
enquanto o suor das árvores escorria,
A face dos anjos tornara-se evidente,
Como se a terra tivesse entrado em agonia.


Cada dia

Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.


Penélope 

Desfaço durante a noite o meu caminho.
Tudo quanto teci não é verdade,
Mas tempo, para ocupar o tempo morto,
E cada dia me afasto e cada noite me aproximo


Reconheceremos 

Nós reconheceremos a mentira do sonho,
Se assim queres, Senhor.
Nós quebraremos o vidro da miragem,
Nós quebraremos o arco-íris da aliança com as flores.


Mãos

Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.


Árvores

Árvores negras que falais ao meu ouvido,
Folhas que não dormis, cheias de febre,
Que adeus é este adeus que me despede
E este pedido sem fim que o vento perde
E esta voz que implora, implora sempre
Sem que ninguém lhe tenha respondido?...


 E só então

E só então saí das minhas trevas: 
Abri as minhas mãos como folhagens, 
Intacta a luz brotava das paisagens, 
Mas minhas mãos queimaram-se e morriam. 

Dia perfeito, inteiro e luminoso, 
Dia presente como a morte, luz 
Trespassando os meus olhos de cegueira. 
Cada cor, cada gesto, cada imagem 
Na exaltação do sol consumia. 


IV

 Que poema

Que poema, de entre todos os poemas,
Página em branco?
Um gesto que se afaste e se desligue tanto
Que atinja o golpe de sol nas janelas.

Nesta página só há angústia a destruir
Um desejo de lisura e branco,
Um arco que se curve – até que o pranto
De todas as palavras me liberte.


 Tudo é nu

Tudo é nu e as estátuas ressuscitam
Silêncio na manhã sem tempo.
Extinção das vozes que se cruzam
E se perdem na agonia como o vento. 

Estátuas lisas, puras, cegas,
Estátuas de gestos imprevisíveis
No ar sem movimento. 

Poema

Poema de geometria e de silêncio
Ângulos agudos e lisos
Entre duas linhas vive o branco.


Barco

Margens inertes abrem os seus braços
Um grande barco no silêncio parte.
Altas gaivotas nos ângulos a pique,
Recém-nascidas à luz, perfeita a morte. 

Um grande barco parte abandonando
As colunas de um cais ausente e branco.
E o seu rosto busca-se emergindo
Do corpo sem cabeça da cidade. 

Um grande barco desligado parte
Esculpindo de frente o vento norte.
Perfeito azul do mar, perfeita a morte
Formas claras e nítidas de espanto 


A praia lisa

A praia lisa de Eurydice morta
As ondas arqueadas como cisnes
AS espumas do mar escorrem sobre um vidro
Num gesto solitário passam as gaivotas.

Endymion ressurge dos destroços
Os pinheiros gemem na duna deserta
O lírio das areias desabrocha
O vento dobra os ramos da floresta.


Poema perdido

Porque eu trazia rios de frescura
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão

E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão.


Rosto

Rosto nu na luz directa.

Rosto suspenso, despido e permeável,
Osmose lenta.
Boca entreaberta como se bebesse,
Cabeça atenta.

Rosto desfeito,
Rosto sem recusa onde nada se defende,
Rosto que se dá na duvida do pedido,
Rosto que as vozes atravessam.

Rosto derivando lentamente,
Pressentindo que os laranjais segredam,
Rosto abandonado e transparente
Que as negras noites de amor em si recebem

Longos raios de frio correm sobre o mar
Em silêncio ergueram-se as paisagens
E eu toco a solidão como uma pedra.

Rosto perdido
Que amargos ventos de secura em si sepultam
E que as ondas do mar puríssimas lamentam.


A ninfa

Branca.
Branca era a ninfa,
Branca e prisioneira
E impaciente.


Dança

O quarto verde, os peixes da penumbra
Peso duplo do corpo no vazio
Gesto dilacerando os nós do frio.


 Inventei

Inventei a dança para me disfarçar. 
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.


Final

Mas na janela o ângulo intacto duma espera
Resolve em si o dia liso.