Poesias do livro:
No tempo dividido (1954)

 

 


Poemas de um livro destruído


I
A memória longínqua de uma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos

II
Eurydice 

Este é o traço em redor do teu corpo amado e perdido 

Para que cercada sejas minha 

Este é o canto do amor em que te falo 
Para que escutando sejas minha 

Este é o poema – engano do teu rosto 
No qual busco a abolição da morte.

III
As paredes são brancas e suam de terror
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar

Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites.


 IV
Porque será que não há ninguém no mundo
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar
E todos a contarem o futuro
Como se fôsse o único presente
Olhos criavam outras as imagens
Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança

V
Não procures verdade no que sabes 
Nem destino procures nos teus gestos 
Tudo quanto acontece é solitário 
Fora de saber fora das leis 
Dentro de um ritmo cego inumerável 
Onde nunca foi dito nenhum nome

VI
Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

 VII

Como é estranha a minha liberdade 
As coisas deixam-me passar 
Abrem alas de vazio p'ra que eu passe 
Como é estranho viver sem alimento 
Sem que nada em nós precise ou gaste 
Como é estranho não saber


 Assim os claros filhos

Assim os claros filhos do mar largo
Atingidos no sonho mais secreto
Caíram de um só golpe sobre a tera
E foram possuídos pela morte.


No mar passa

No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente.


 A liberdade

A liberdade que dos deuses eu esperava
Quebrou-se. As rosas que eu colhia,
transparentes no tempo luminoso,
Morreram com o tempo que as abria.


Tarde

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas.


 Dia

Como um oásis branco era o meu dia
Nele secretamente eu navegava
Unicamente o vento me seguia.

 Intacta memória

Intacta memória - se eu chamasse
Uma por uma as coisas que adorei
Talvez que a minha vida regressasse
Vencida pelo amor com que a lembrei.


Primeira liberdade

Eu falo da primeira liberdade
Do primeiro dia que era mar e luz
Dança, brisa, ramagens e segredos
E um primeiro amor morto tão cedo
Que em tudo que era vivo se encarnava.


Puro espírito

Puro espírito do êxtase e do vento
Que no silêncio da planície danças

Eu não quero tocar teu corpo de água
Nem quero possuir-te nem cantar-te
Pesa-me já demais a minha mágoa
Sem que seja preciso procurar-te.


Praia

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços.


Saga

Aos outros dei aquilo que não eram
E por isso depois me arrependi
Um homem morto em tudo o que perdi -
E olhos que são meus e não me esperam.


Promessa

Na clara paisagem essencial e pobre
Viverei segundo a lei da liberdade
Segundo a lei da exacta eternidade.


Poema de Amor de António e de Cleópatra

Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua. 


 Soneto de Eurydice

Eurydice perdida que no cheiro 
E nas vozes do mar procura Orpheu: 
Ausência que povoa terra e céu 
E cobre de silêncio o mundo inteiro. 

Assim bebi manhãs de nevoeiro 
E deixei de estar viva e de ser eu 
Em procura de um rosto que era o meu 
O meu rosto secreto e verdadeiro. 

Porém nem nas marés, nem na miragem 
Eu te encontrei. Erguia-se somente 
O rosto liso e puro da paisagem. 

E devagar tornei-me transparente 
Como morte nascida à tua imagem 
E no mundo perdida esterilmente. 


No tempo dividido

E agora ó Deuses que vos direi de mim?
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
como um monstro a si próprio se devora.


 A estátua

Nas suas mãos a voz do mar dormia
Nos seus cabelos o vento se esculpia

A luz rolava entre seus braços frios
E nos seus olhos cegos e vazios
Boiava o rasto branco dos navios.


Quadro

Indeciso ressurge do poente
Aureolado de espanto e de desastres
Em busca do seu corpo dividido

Todas as sombras se erguem das esquinas
E o seguem devagar nas ruas verdes
São como cães no rastro dos seus passos

Aberta a porta o quarto grave surge
E os espaços oscilam nas janelas.


Santa Clara de Assis

Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas. 

Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida: 
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida, Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem.


 Prece

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.


Eu contarei

Eu contarei a beleza das estátuas -
Seus gestos imóveis ordenados e frios -
E falarei do rosto dos navios

Sem que ninguém desvende outros segredos
Que nos meus braços correm como rios
E enchem de sangue a ponta dos meus dedos.