Poesias do livro:
GEOGRAFIA (IV - V) (1962)

 


 

IV
Dual


 Novembro

A respiração de Novembro verde e fria 
Incha os cedros azuis e as trepadeiras 
E o vento inquieta com longínquos desastres 
A folhagem cerrada das roseiras 


Signo

Meu signo é o da morte porém trago
Uma balança interior uma aliança
Da solidão com as coisas exteriores


De um amor morto

De um amor morto fica
um pesado tempo quotidiano
onde os gestos se esbarram ao longo do ano 

De um amor morto não fica
nenhuma memória
o passado se rende
o presente o devora
e os navios do tempo
agudos e lentos
o levam embora

Pois um amor morto não deixa
em nós seu retrato
de infinita demora
é apenas um facto
que a eternidade ignora


Dual

Altas marés no tumulto me ressoam
E paredes de silêncio me reflectem


O vazio desenhava desde sempre

O vazio desenhava desde sempre a forma do teu rosto
Todas as coisas serviam para nos ensinar
A ardente perfeição da tua ausência


Assim o amor

Assim o amor
Espantando meu olhar com teus cabelos
Espantando meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilavam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa


 A flauta

No canto do quarto a sombra tocou sua pequena flauta
Foi então que me lembrei de cisternas e medusas
E do brilho mortal da praia nua.

Estava o anel da noite solenemente posto no meu dedo
E a navegação do silêncio continuou sua viagem antiquíssima


No deserto

Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino
Eu te debelo com espora e rédea

Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilônia
Nem nos ritos sagrentos de Nínive

Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo

Por isso te debelo te combato te domino
E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém

Para poder soltar-se livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo


No quarto

No quarto roemos o sabor da fome
A nossa imaginação divaga entre paredes brancas
Abertas como grandes páginas lisas.
O nosso pensamento erra sem descanso pelos mapas
A nossa vida é como um vestido que não cresceu connosco


 O filho pródigo

Banido da tua herança
Dispersaste as tuas forças contra os enganos da terra
Comendo o pão magro das sementeiras devastadas -
Até que viraste os teus passos pelo avesso:
Filho pródigo que nenhum pai esperava em seu regresso.


Caminho

Na marcha pelo deserto eu sabia
Que alguns morreriam

Mas pensava sob o céu redondo
- Onde
O limite do meu amor pela minha força?

E eis que morro antes do próximo oásis
Com a garganta seca e o peso
Ilimitado do sol sobre os meus ombros

Eis que morro cega de brancura
Cansada demais para avistar miragens

Eu sabia
Que alguém
Antes do próximo oásis morreria


Janela

Janela rente ao mar e rente ao tempo
- Ó mãos poisadas sobre um Junho antigo -
De ano em ano de hora em hora
Caminho para a frente e cega me persigo

Quem me consolará do meu corpo sepultado?


 Casa

A antiga casa que os ventos rodearam
Com suas noites de espanto e de prodígio
Onde os anjos vermelhos batalharam

A antiga casa de inverno em cujos vidros
Os ramos nus e negros se cruzaram
Sob o Íman dum céu lunar e frio

Permanece presente como um reino
E atravessa meus sonhos como um rio


As nereides

Pudesse eu reter o teu fluir, ó quarto 
Reter para sempre o teu quadrado branco 
Denso de silêncio puro 
E vida atenta

Reter o brilho
Da Cassiopeia em frente da janela
Reter a queda
Das ondas sobre a areia
E habitar para sempre o teu espelho

Que dos meus ombros jamais tombasse o tempo
Marinho misterioso e antigo
Assim como as nereides
Não perderão jamais seu manto de água


Portas da vila

I

A casa está na tarde
Actual mas nos espelhos
Há o brilho febril de um tempo antigo
Que se debate emerge balbucia

II

Com um barulho de papel o vento range na palmeira
O brilho das estrelas suspende o nosso rosto
Com seu jardim nocturno de paixão e de perfume
A casa nos invade e nos rodeia

III

A casa vê-se de longe porque é branca
Mas sombrio
É o quarto atravessado pelo rio

IV

A casa jaz com mil portas abertas
O interior dos armários é obscuro e vazio
A ausência começa poisando seus primeiros passos
No quarto onde poisei o rosto sobre a lua


Palmeiras geometria

Palmeiras geometria
São meu alimento
Secura silêncio
São minha bebida
E a infinita ausência
É a minha vida
A funda a secreta
Com sabor a pedra
E perfume de vento


 Os espelhos

Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos reflectem. Nunca nos decoram

Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo


 Ali, então

Ali então em pleno mundo antigo
À sombra do cipreste e da videira
Olhando o longo tremular do mar
Num silêncio de luas e de trigo

(Como se a morte a dor o tempo a sorte
Não nos tivessem nunca acontecido)

Em nossas vidas a pausa há-de poisar
Como o luar que poisa nas videiras
E em frente ao longo tremular do mar
Num perfume de vinho e de roseiras
A sombra da videira há-de poisar
Em nossas mãos e havemos de habitar
O silêncio das luas e do trigo
No instante ameaçado e prometido

E os poemas serão o próprio ar
- Canto de ser inteiro e reunido -
Tudo será tão próximo do mar
Como o primeiro dia conhecido


V
Mediterrâneo


 Acaia

Aqui despi meu vestido de exílio 
E sacudi de meus passos a poeira do desencontro


No golfo de Corinto

No golfo de Corinto
A respiração dos deuses é visível:
É um arco um halo uma nuvem
Em redor das montanhas e das ilhas
Como um céu mais intenso e concentrado

E também o cheiro dos deuses invade as estradas
É um cheiro a resina a mel e a fruta
Onde se desenham grandes corpos lisos e brilhantes
Sem dor sem suor sem pranto
Sem a menor ruga de tempo

E uma luz cor de amora no poente se espalha
É o sangue dos deuses imortal e secreto
Que se une ao nosso sangue e com ele batalha


 Sunion

Na nudez da luz (cujo exterior é o Interior)
Na nudez do vento (que a si próprio se rodeia)
Na nudez marinha (duplicada pelo sal)

Uma a uma são ditas as colunas de Sunion


Epidauro

O Cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre 
o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é. 

trazida à luz 
trazida à liberdade da luz 
trazida ao espanto da luz 

Eis-me vestida de sol e de silêncio. Gritei para destruir o Minotauro 
e o palácio. Gritei para destruir a sombra azul do Minotauro. porque 
ele é insaciável. Ele come dia após dia os anos da nossa vida. Bebe o 
sacrifício sangrento dos nossos dias. Come o sabor do nosso pão a nossa 
alegria do mar. Pode ser que tome a forma dum polvo como nos vasos 
de Knossos. Então dirá que é o abismo do mar e a multiplicidade do 
real. Então dirá que é duplo. Que pode tornar-se pedra com a pedra 
alga com a alga. Que pode dobrar-se que pode desdobrar-se. Que os seus 
braços rodeiam. Que é circular. Mas de súbito verás que é um homem 
que traz em si mesmo a violência do toiro. 

Só poderás ser liberta aqui na manhã d´Épidauro. Onde o ar toca 
o teu rosto para te reconhecer e a doçura da luz te parece imortal. A tua 
voz subirá sózinha as escadas de pedra pálida. E ao teu encontro 
regressará a teoria ordenada das sílabas – portadoras limpas da serenidade. 


Tolon

Um mar horizontal corta os espelhos
E um sol de sal cintila sobre a mesa.
Habitamos o ar livre rente ao dia
Rente ao fruto rente ao vinho rente às águas
E sob o peso leve da folhagem


 Crepúsculo dos deuses

Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu 
E Homero fez florir o roxo sobre o mar 
O Kouros avançou um passo exactamente 
A palidez de Atena cintilou no dia 

Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos 

E para o fundo do seu império recuaram os Persas 

Celebrámos a vitória : a treva 
Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos 
O grito rouco do coro purificou a cidade 

Como golfinhos a alegria rápida 
Rodeava os navios 
O nosso corpo estava nu porque encontrara 
Sua medida exacta 
Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz. 

Mas eis que se apagaram 
Os antigos deuses sol interior das coisas 
Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas 
Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência 
E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu: 

«Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado 
Febo já não tem cabana nem loureiro profético 
nem fonte melodiosa. A água que fala calou-se» 


 Ítaca
Quando as luzes da noite se reflectirem nas águas verdes de Brindisi
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio
Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridao fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento

O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto


Um poeta clássico

Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo
Prumo esteio coluna
Combate esculpido nas métopas do templo

Una e múltipla
Cada encontro a recomeça
Agudo gume quando a música ressoa
Venenosa rosa do Junho mais antigo

Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo
Nem integrada nem assumida
Apenas companheira
Segunda mão poisada sobre a mesa
Mão esquerda

Companheira serena
Das coisas serenas:
Parede livro fruto
E fogosa condutora dos desastres
Que nos esperam em seus pátios lisos