Poesias do livro:
O nome das coisas (I - II) 1977

 


I -1972-1973
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 Che Guevara

Contra ti se ergueu a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra

De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das Igrejas

Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece.

 Soror Mariana - Beja 

Cortaram os trigos. Agora 
A minha solidão vê-se melhor 


 Como o rumor

Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto


 Sua beleza

Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
desloca o visual

Seu torso lembra o respirar da vela
seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser


 "Fernando Pessoa" ou "O poeta em Lisboa"

Em sinal de sorte ou desgraça
A tua sombra cruza o ângulo da praça
(Trémula incerta impossessiva alheia
E como escrita de lápis leve e baça)
E sob o voo das gaivotas passa
Atropelada por tudo quanto passa

Em sinal de sorte ou de desgraça

Lisboa, 1972


 O palácio

Era um dos palácios do Minotauro
- o da minha infância para mim o primeiro -
Tinha sido construído no século passado (e pintado a vermelho)

Estátuas escadas veludo granito
Tílias o cercavam de música e murmúrio
Paixôes e traições o inchavam de grito

ESpelhos ante espelhos tudo aprofundavam
Seu pátio era interior era átrio
As suas varandas eram por dentrpo
Viradas para o centro
Em grandes vazios a vozes ecoavam
Era um dos palácios do Minotauro
o da minha infância - para mim o vermelho 

Ali a magia como fogo ardia de Março a Fevereiro
A prata brilhava o vidro luzia
Tudo tilintava tudo estremecia
De noite e de dia

Era um dos palácios do Minotauro
- o da minha infância para mim o primeiro 
Ali o tumulto cego confundia 
O escuro da noite e o brilho do dia 
Ali era a fúria o clamor o não dito 
Ali o confuso onde tudo irrompia 
Ali era o Kaos onde tudo nascia


Torso

Torcendo o torso virava o volante da escavadora
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas

Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo

Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos


Paráfrase

«Antes ser na terra escravo de um escravo 
Do que ser no outro mundo rei de todas as sombras»
Odisséia- Homero

Antes ser sob a terra abolição e cinza
Do que ser neste mundo rei de todas as sombras.


II
1974-1975


Lagos I

«Un jour a Lagos ouverte sur la mer comme l’autre Lagos»
Senghor

Em Lagos
Virada para o mar como a outra Lagos
Muitas vezes penso em Leopoldo Sedar Senghor:
A precisa limpidez de Lagos onde a limpeza
É uma arte poética e uma forma de honestidade
Acorda em mim a nostalgia de um projecto
Racional limpo e poético

Os ditadores – é sabido – não olham para os mapas
Suas excursões desmesuradas fundam-se em confusões
O seu ditado vai deixando jovens corpos mortos pelos caminhos
Jovens corpos mortos ao longo das extensões

Na precisa claridade de Lagos é-me mais difícil 
Aceitar o confuso o disforme a ocultação

Na nitidez de Lagos onde o visível 
Tem o recorte simples e claro de um projecto
O meu amor da geometria e do concreto
Rejeita o balofo oco da degradação

Na luz de Lagos matinal e aberta 
Na praça quadrada tão concisa e grega
Na brancura da cal tâo veemente e directa
O meu país se invoca e se projecta

Lagos, 20 de abril de 1974


25 de Abril 

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


Revolução

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro ínicio
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

27 de Abril de 1974 


Nesta hora

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda 
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo 
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exilio 
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade 

Meia verdade é como habitar meio quarto 
Ganhar meio salário 
Como só ter direito 
A metade da vida 

O demagogo diz da verdade a metade 
E o resto joga com habilidade 
Porque pensa que o povo só pensa metade 
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe 

A verdade não é uma especialidade 
Para especializados clérigos letrados 

Não basta gritar povo 
É preciso expor 
Partir do olhar da mão e da razão 
Partir da limpidez do elementar 

Como quem parte do sol do mar do ar 
Como quem parte da terra onde os homens estão 

Para construir o canto do terrestre 
- Sob o ausente olhar silente de atenção - 

Para construir a festa do terrestre 
Na nudez de alegria que nos veste. 

20 de Maio de 1974


Com fúria e raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra"

Junho de 1974


Projecto I

O longo muro alentejano e branco 
O desejo de limpo e de lisura
Aqui na casa térrea a arquitectura
Tem a clareza nua de um projecto


Enquanto longe divagas



Enquanto longe divagas 
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra 
- Enquanto vais à deriva das correntes 
E fugitivo perseguido por inomeadas formas 
A ti próprio te buscas devagar 
- Enquanto percorres os labirintos da viagem 
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombas 
- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas 
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida 
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras 
E as vozes da casa te invocam e te seguem 
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar 
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado 
- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais 
E na praia que é teu leito como criança dormes 
E devagar devagar a teu corpo regressas 
Como jovem toiro espantado de se reconhecer 
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos 
E devagar recuperas tua mão teu gesto 
E teu amor das coisas sílaba por sílaba 

II 

O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono 
É como ave no ar veloz detida 
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso 

III 

Pois no ar estremece tua alegria 
- Tua jovem riqueza de arbusto - 
A luz espera teu perfil teu gesto 
Teu ímpeto tua fuga e desafio 
Tua inteligência tua argúcia teu riso 

Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso 

Junho de 1974


Breve encontro

Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida


Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
- sílaba por sílaba - 
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos


A casa térrea

Que a arte não se torne para ti a compensação daquilo que não soubeste ser
Que não seja transferência nem refúgio
Nem deixes que o poema te adie ou divida: mas que seja
A verdade do teu inteiro estar terrestre

Então construirás a tua casa na planície costeira
A meia distância entre montanha e mar
Construirás - como se diz - a casa térrea -
Construirás a partir do fundamento


Retrato de mulher

Algo de cereal e de campestre
Algo de simples em sua claridade
Algo sorri em sua austeridade


Esteira e cesto

No entrançar de cestos ou de esteira
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto
Mas seu humano casamento com a terra


O Rei da Ítaca 

A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei da Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado



 Caderno II

Quando me perco de novo neste antigo 
Caderno de capa preta de oleado 
Que um dia rasguei com fúria e desespero 
E que um amigo recolou com amor e paciência 

De novo se ergue em minha frente a clara 
Parede cal do quarto matinal 
Virado para o mar e onde o poente 
Se afogueava denso e transparente 
E a sonâmbula noite se azulava 

Ali o tempo vivido foi tão vivo 
Que sempre à própria morte sobrevive 
E cada dia julgo que regressa 
Seu esplendor de fruto e de promessa 


Dia

Mergulho no dia como em mar ou seda
Dia passado comigo e com a casa
Perpassa pelo ar um gesto de asa
Apesar de tanta dor e tanta perda


O Minotauro

Assim o Minotauro longo tempo latente
De repente salta sobre a nossa vida
Com veemência vital de monstro insaciado


A paixão nua

A paixão nua e cega dos estios
Atravessou a minha vida como rios


Exílio

Exilámos os deuses e fomos
Exilados da nossa inteireza


Oásis

Penetraremos no palmar
A água será clara e o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu – o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra

Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira