Poesias do livro:
O nome das coisas (III) 1977

 


III

 Projecto II

Esta foi sua empresa: reencontrar o limpo
Do dia primordial. Reencontrar a inteireza
Reencontrar o acordo livre e justo
E recomeçar cada coisa a partir do princípio

Em sua empresa falharam e o relato
De sua errância erros e derrotas
De seus desencontros e desencontradas lutas 
É moroso e confuso

Porém restam
Do quebrado projecto de sua empresa em ruína
Canto e pranto clamor palavras harpas
Que de geração em geração ecoam
Em contínua memória de um projecto
Que sem cessar de novo tentaremos.


Regressarei

Eu regressarei ao poema como à pátria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas


Será possível

Será possível que nada se cumprisse?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
– Que nada sejam senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta - só perdido?


435) "À maneira de..."

Síntese a linha clara - em seu
Horizonte a luz se desfere. Opaca (ela)
De nós se nutre como lume aceso


Tripoli 76

I

Cruzam-se muitas e diversas gentes
Vindas de muitos e diversosmundos
Vestindo muitas e diversas roupas
Falando muitas e diversas línguas
Vêm de muitos e diversos ritos
E cultos e culturas e paragens

II

O recitador encontra a palavra modulada
Rouca de deserto e imensidão
Entoa a veemência nua da palavra
Fronteira de puro Deus e puro nada

III

E Leptis Magna em sua pedra cor de trigo
E em seu chãop de laje pelo sol varrido
Guarda o matinal no mais antigo


Carta a Ruben A.

Que tenhas morrido é ainda uma notícia 
Desencontrada e longínqua e não a entendo bem 
Quando – pela primeira vez – bateste à porta da casa e te sentaste à mesa 


Trazias contigo como sempre alvoroço e início 
Tudo se passou em plenos e projectos 
E ninguém poderia pensar em despedida 


Mas sempre trouxeste contigo o desconexo 
De um viver que nos funda e nos renega 
- Poderei procurar o reencontro verso a verso 
E buscar – como oferta – a infância antiga 


A casa enorme vermelha e desmedida 
Com seus átrios de pasmo e ressonância 
O mundo dos adultos nos cercava 
E dos jardins subia a transbordância 
De rododendros dálias e camélias 
De frutos roseirais musgos e tílias 


As tílias eram como catedrais 
Percorridas por brisas vagabundas 
As rosas eram vermelhas e profundas 
E o mar quebrava ao longe entre os pinhais 


Morangos e muguet e cerejeiras 
Enormes ramos batendo nas janelas 
Havia o vaguear tardes inteiras 
E a mão roçando pelas folhas de heras 


Havia o ar brilhante e perfumado 
Saturado de apelos e de esperas 
Desgarrada era a voz das primaveras 


Buscarei como oferta a infância antiga 
Que mesmo tão distante e tão perdida 
Guarda em si a semente que renasce 


Açores

Há um intenso orgulho 
Na palavra Açor 
E em redor das ilhas 
O mar é maior 

Como num convés 
Respiro ampIidão 
No ar brilha a luz 
Da navegação 

Mas este convés 
É de terra escura 
É de lés a lés 
Prado agricultura 

É terra lavrada 
Por navegadores 
E os que no mar pescam 
São agricultores 

Por isso há nos homens 
Aprumo de proa 
E não sei que sonho 
Em cada pessoa 

As casas são brancas 
Em luz de pintor
Quem pintou as barras 
Afinou a cor 

Aqui o o antigo 
Tem o limpo do novo 
É o mar que traz 
Do largo o renovo

E como num convés 
De intensa limpeza 
Há no ar um brilho 
De bruma e clareza 

É convés lavrado 
Em plena amplidão 
É o mar que traz 
As ilhas na mão 

Buscámos no mundo 
Mar e maravilhas 
Deslumbradamente 
Surgiram nove ilhas 

E foi na Terceira 
Com o mar à proa 
Que nasceu a mãe 
Do poeta Pessoa 

Em cujo poema 
Respiro amplidão 
E me cerca a luz 
Da navegação 

Em cujo poema 
Como num convés 
A limpeza extrema 
Luz de lés a lés 

Poema onde está 
A palavra pura 
De um povo cindido 
Por tanta aventura 

Poema onde está 
A palavra extrema 
Que une e reconhece 
Pois só no poema 

Um povo amanhece 

1976

A forma justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo


441) Nestes últimos tempos

Nestes últimos tempos é certo que a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo - de seu
Viscoso gozo da nata da vida - que diremos 
De sua feroz ganância e fria possesão?

Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?

Nestes últimos tempos é certo que a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?

Julho de 1976


Por delicadeza

Bailarina fui 
Mas nunca dancei 
Em frente das grades 
Só três passos dei 

Tão breve o começo 
Tão cedo negado 
Dancei no avesso 
Do tempo bailado 

Dançarina fui 
Mas nunca bailei 
Deixei-me ficar 
Na prisão do rei 

Onde o mar aberto 
E o tempo lavado? 
Perdi-me tão perto 
Do jardim buscado 

Bailarina fui 
Mas nunca bailei 
Minha vida toda 
Como cega errei 

Minha vida atada 
Nunca a desatei 
Como Rimbaud disse 
Também eu direi: 

«Juventude ociosa 
Por tudo iludida 
Por delicadeza 
Perdi a minha vida» 


Poema

Cantaremos o desencontro: 
O limiar e o linear perdidos

Cantaremos o desencontro: 
A vida errada num país errado 
Novos ratos mostram a avidez antiga