Poesias do livro:
Ilhas (1989)

 




Poemas reencontrados
I

Fragmento de Os Gracos

«............»
Os ricos nunca perdem a jogada
Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros.
São hábeis e sábios
Têm uma longa experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham
Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena
«........»

(Os Gracos. I Acto. II Cena — 1968)


 Não te esqueças nunca

Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina
O pinhal a coluna a veemência divina
O templo o teatro o rolar de uma pinha
O ar cheirava a mel e a pedra a resina
Na estátua morava tua nudez marinha
Sob o sol azul e a veemência divina

Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima
O horror o terror a suprema ignomínia



II

Tempo de não

Exausta fujo as arenas do puro intolerável
Os deuses da destruição sentaram-se ao meu lado
A cidade onde habito é rica de desastres
Embora exista a praia lisa que sonhei


Senhora da saúde

Seu rosto seria a cintilante claridade 
De uma praia
E em sua humana carne brilharia
A luz sem mancha do primeiro dia


 São Tiago de Compostela

Assim pudesse o poema
Como a pedra esculpida
Do pórtico antigo
Ter em si própria a mesma
Compacta alegria
Cereal claridade

Ante o voo da ave
Do espírito que ergue
Os pilares da nave


O príncipe bastardo

O príncipe bastardo António Prior do Crato
Morreu no exílio não conquistou seu reino
E aqueles que invocou não o coroaram 

Entre ele e seu destino havia um outro
Perdido em batalha tão confusa 
Que ninguém sabe se está vivo ou morto


Barcelona

Luz e sol e pintura
Sobre o telhado à noite a lua cresce
Abro os olhos como um barco pelas ruas
No entanto outonece


O rei de Chipre

Se não fosse o amor que tudo esconde
Sob o excessivo tumulto do seu corpo
Nem fosse a solidão que tudo esfria
Como pequena pedra que irradia

Mas antes um lugar de transparência
E o rei de Chipre tão só a companhia
E a clareza do trigo em sua face
Como quem só em ilhas habitasse


Madrugada

Um leve tremor precede a madrugada
Quando mar e céu na mesma cor se azulam
E são mais claras as luzes dos barcos pescadores
E para além de insânias e rumores
A nossa vida se vê extasiada