Poesias do livro:
Ilhas (III) 1989




Poemas reencontrados
III

 Os navegadores 

O múltiplo nos enebria
O espanto nos guia
Com audácia desejo e calculado engenho
Forçámos os limites –
Porém o Deus uno
De desvios nos protege
Por isso ao longo das escadas
Cobrimos de oiro o interior sombrio das igrejas 


 Descobrimento

Saudavam com alvoroço as coisas
Novas
O mundo parecia criado nessa mesma
Manhã


No mais secreto

No mais secreto de Junho e de folhagens
Ou interior de flor secretamente
Rosto sob o choupo à luz das luas
Rosto do meu rosto exactamente
Espelho quasi onde me vi de frente
E deslizamos pelo rio como um barco


Kouros do Egeu

Sorriso sem costura
Inocência de caule
Retrato nu do liso

A Niké de alegria poisava em seus pés em cada ilha


Habitação

Muito antes do chalet
Antes do prédio
Antes mesmo da antiga
Casa bela e grave
Antes de solares palácios e castelos
No princípio
A casa foi sagrada –
Isto é habitada
Não só por homens e por vivos
Mas também pelos mortos e por deuses

Isto depois foi saqueado
Tudo foi reordenado e dividido
Caminhamos no trilho
De elaboradas percas

Porém a poesia permanece
Como se a divisão não tivesse acontecido
Permanece mesmo muito depois de varrido
O sussurro de tílias junto à casa de infância


Dedicatória da terceira edição do CORAL ao Ruy Cinatti

Para o Ruy Cinatti porque neste livro
De folha em folha passam gestos seus
Assim como de folha em folha em arvoredo
A brisa perde ao sussurrar seus dedos


Carta(s) a Jorge de Sena 


Não és navegador mas emigrante 
Legítimo português de novecentos 
Levaste contigo os teus e levaste 
Sonhos fúrias trabalhos e saudade; 
Moraste dia por dia a tua ausência 
No mais profundo fundo das profundas 
Cavernas altas onde o estar se esconde 


II 
E agora chega a notícia que morreste 
E algo se desloca em nossa vida 


III 
Há muito estavas longe 
Mas vinham cartas poemas e notícias 
E pensávamos que sempre voltarias 
Enquanto amigos teus aqui te esperassem - 
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira 
Não como filho pródigo mas como irmão prudente 
E ríamos e falávamos em redor da mesa 
E tiniam talheres loiças e vidros 
Como se tudo na chegada se alegrasse 

Trazias contigo um certo ar de capitão de tempesatades 
- Grandioso vencedor e tão amargo vencido - 
E havia avidez azáfama e pressa 
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa 
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade 
E em redor da mesa celebrávamos a festa 
Do instante que brilhava entre frutos e rostos 


IV 
E agora chega a notícia que morreste 
A morte vem como nenhuma carta 



O sol o muro o mar

O olhar procura reunir um mundo que foi
destroçado pelas fúrias.
Pequenas cidades: muros caiados e recaiados para
manter intacto o alvoroço do início.
Ruas metade ao sol metade à sombra.
Janelas com as portadas azuis fechadas: violento
azul sem nenhum rosto.
Lugares despovoados, labirinto deserto: ausência
intensa como o arfar de um toiro.
Exterior exposto ao sol, senhor dos muros dos
pátios dos terraços.
Obscuros interiores rente à claridade, secretos e
atentos: silêncio vigiando
o clamor do sol sobre as pedras da calçada.
Diz-se que para que um segredo não nos devore é
preciso dizê-lo em voz alta no sol de um terraço
ou de um pátio.
Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para
o exterior o medo.
Muros sem nenhum rosto morados por densas
ausências.
Não o homem mas os sinais do homem, a sua arte,
os seus hábitos, o seu violento azul, o espesso
amarelo, a veemência da cal.
Muro de taipa que devagar se esboroa -- tinta que
se despinta -- porta aberta para o pátio de chão
verde: soleira do quotidiano onde a roupa seca e
espaço de teatro. Mas também pórtico solene aberto
para a vida sagrada do homem.
Muro branco que se descaia e azula irisado de
manchas nebulosas e sonhadoras.

A porta desenha sua forma perfeita à medida do
homem: as cores do cortinado de fitas contam a
nostalgia de uma festa.
Lá dentro a penumbra é fresca e vagarosa.
Nenhum rosto, nenhum vulto.
As marcas do homem contando a história do
homem.

No promontório o muro nada fecha ou cerca.
Longo muro branco entre a sombra do rochedo e
as lâmpadas das águas.
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto
de escamas e brilhos como na infância.
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica.
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata alegria: a evidência do
lugar sagrado.


Princípio de verão

Largos longos doces horizontes 
A desdobrada luz ao fim da tarde 
Um ar de praia nas ruas da cidade 
Secreto sabor a rosa e nardo arde 


A Koré

Alta e solene mais alta do que a luz
a pesada palidez sagrada do Pártenon
reina sobre o dia

Folhagens dançam movidas pelo vento

Na mesa ao lado a Koré de nariz direito e cabelo entrançado
serve de intérprete e erguendo a sua taça
brinda com os comerciantes tedescos que saquearam
a Grécia e a Europa quase toda
mas que após a derrota dos seus generais
ganharam a guerra

O café tem pó — relíquias dos turcos

Porém no vinho resinado no frescor da vinha
na fina suave brisa nas pálidas colunas
algo dos deuses súbito visita
a luz do instante