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Poemas reencontrados
IV

Poema
Cumpridos os deveres compridos deixaram
De assediar minhas horas
Doce a liberdade retoma em si minha leveza antiga
O dia
Passa o dia contigo
Não deixes que te desviem
Um poema emerge tão jovem tão antigo
Que nem sabes desde quando em ti vivia
Guitarra
Na voz de oiro e de sombra da guitarra
Algo de mim a si próprio renuncia
A escrita
No Palácio Mocenigo onde viveu sozinho
Lord Byron usava as grandes salas
Para ver a solidão espelho por espelho
E a beleza das portas quando ninguém passava
Escutava os rumores marinhos do silêncio
E o eco perdido de passos num corredor longínquo
Amava o liso brilhar do chão polido
E os tectos altos onde se enrolam as sombras
E embora se sentasse numa só cadeira
Gostava de olhar vazias as cadeiras
Sem dúvida ninguém precisa de tanto espaço vital
Mas a escrita exige solidões e desertos
E coisas que se vêem como quem vê outra coisa
Pudemos imaginá-lo sentado à sua mesa
Imaginar o alto pescoço espesso
A camisa aberta e branca
O branco do papel as aranhas da escrita
E a luz da vela - como em certos quadros -
Tornando tudo atento
Glosa de "So we'll go no more a roving" de Byron
Não irei mais meu erro errando errante
Pela noite fora
Embora a lua brilhe tanto como outrora
Não cesse do amor a voz uivante
Que me devora
Pois o coração gasta o peito
E a espada gasta a bainha
O tempo rói o coração desfeito
E a alma é sozinha
Embora a noite sempre peça amor
E o dia volte demasiado cedo
E o luar corte como espada nua
Não irei mais em pânico e segredo
Sob a luz da lua
O país sem mal
Um etnólogo diz ter encontrado
Entre selvas e rios depois de longa busca
Uma tribo de índios errantes
Exaustos exauridos semimortos
Pois tinham partido desde há longos anos
Percorrendo florestas desertos e campinas
Subindo e descendo montanhas e colinas
Atravessando rios
Em busca do país sem mal --
Como os revolucionários do meu tempo
Nada tinham encontrado
Memória
Tão nobre espírito
em tão estreita regra
Tão vasta liberdade em tão estreita
Regra
Senhor
Senhor sempre te adiei
Embora sempre soubesse que me vias
Quis ver o mundo em si e não em ti
E embora nunca te negasse te apartei
1987
Os biombos Nanbam
Os biombos Nambam contam
A história alegre das navegações
Pasmo de povos de repente
Frente a frente
Alvoroço de quem vê
O tão longe tão ao pé
Laca e leque
Kimono camélia
Perfeição esmero
E o sabor do tempero
Cerimónias mesuras
Nipónicas finuras
Malícia perante
Narigudas figuras
Inchados calções
Enquanto no alto
Das mastreações
Fazem pinos dão saltos
Os ágeis acrobatas
Das navegações
Dançam de alegria
Porque o mundo encontrado
É muito mais belo
Do que o imaginado

Estátua de Buda
Os belos traços o inchado beiço a narina fina
O torneado corpo e sua
Beleza tão carnal de magnólia e fruto
Em tão longínqua latitude representam
O príncipe da perfeição e da renúncia
Antes do museu
Em sua frente
Oscilavam sombras e luzes enquanto deslizava
O rio das preces
Casas
Casas - casas roucas
Atentos muros - umbrais medidos e solenes
Quarto após quarto penumbra sequiosa
Tectos lentos
Como no espelho afloram
Lagos e magia: caminho
Submerso do possível
A paixão habita seu jogo mais secreto
Sua trágica e precisa
Perfeição
1987

Fúrias
Escorraçadas do pecado e do sagrado
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo estraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario
Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia-a-dia
Elas nos desfiam
Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria
Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruta
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço
E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contratempo
1988
Viagem
Naquele tempo era o Kaos
E as palavras do poema não irrompiam já como palmeiras
Por isso abandonou a cidade - o país natal
País perdendo dia a dia o seu rosto:
A pintura a cair das paredes - cães
Farejando o lixo -
Brutais os gestos - obscenas as palavras
De cada coisa a beleza destroçada
Por isso se evadiu e para Oriente
Navegou e de noite e lentamente
E um novo dia se abriu em sua frente
E era um país de tigres e palmeiras
Como em longínquo cismar adolescente
Ilha do Príncipe
“Suave, doce, lânguida ilha
de transparências súbitas”
Ruy Cinatti
A ilha do príncipe que o Ruy Cinatti amou
Surgia devagar
E ele debruçado na amurada do navio
A viu emergir dos longes da distância
No lento aproximar
Flor que desabrocha à flor do mar
Entre alísios vidros e neblinas
Na salgada respiração da vastidão marinha
Na transparência súbita
Eu cheguei mais tarde no ronco do avião
Na bruta rapidez
Porém também eu me banhei nas longas ondas
Das praias belas como no princípio do mundo
E atravessei o verde espesso da floresta
E respirei o perfume da ocá recém-cortada
Elsinore
No palácio dos Átridas como em Elsinore
Tudo era cavernoso – as paredes
Eram grossas o espaço excessivo e sonoro
Roucas as vozes da maldição antiga
Porém em Micenas o sangue era exposto
E corria vermelho como num grande talho
Sujando apenas as mãos dos assassinos
E a água da banheira –
Lá fora o rio a luz
Continuavam limpos e transparentes
O crime era um corpo estranho e circunscrito
Não pertencia à natureza das coisas
Em Elsinore ao contrário o mal era um veneno
Subtil
Invadia o ar e a luz – penetrava
Os ouvidos as narinas o próprio pensamento –
O amor era impossível e ninguém podia
Libertar-se:
O inferno vomitava a sua pestilência invadia
As veias e os rios:
No entanto o mal não se via: era apenas
Um leve sabor a podre que fazia parte
Da natureza das coisas
Escrita II
Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
Arte poética V
Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um
antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte
de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a
literatura.
Eu era de fato tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas,
mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das
coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos
lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio
ar continha em si.
No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente.
E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me,
muito tempo mais tarde, que não há poesia em silêncio, sem que se
tenha criado o vazio e a despersonalização.
Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário de almoço dos
turistas - coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de
um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria palavra,
desligada de mim.
Tempos depois escrevi estes três versos:
A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha.

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