Outros poemas de Sophia




Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.


Tão grande dor 

"Tão grande dor para tão pequeno povo" 

Timor fragilíssimo e distante
«Sândalo flor búfalo montanha
Cantos danças ritos
E a pureza dos gestos ancestrais» 

Em frente ao pasmo atento das crianças
Assim contava o poeta Ruy Cinatti
Sentado no chão
Naquela noite em que voltara da viagem

Timor
Dever que não foi cumprido e que por isso dói
Depois vieram notícias desgarradas
Raras e confusas
Violência mortes crueldade
E ano após ano
Ia crescendo sempre a atrocidade
E dia a dia - espanto prodígio assombro -
Cresceu a valentia
Do povo e da guerrilha
Evanescente nas brumas da montanha

Timor cercado por um muro de silêncio
Mais pesado e mais espesso do que o muro
De Berlim que foi sempre tão falado
Porque não era um muro mas um cerco
Que por segundo cerco era cercado
O cerco da surdez dos consumistas
Tão cheios de jornais e de notícias

Mas como se fosse o milagre pedido
Pelo rio da prece ao som das balas
As imagens do massacre foram salvas
As imagens romperam os cercos do silêncio
Irromperam nos écrans e os surdos viram
A evidência nua das imagens


Cantata de paz 

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.


Os poetas

Solitários pilares dos céus pesados,
Poetas nus em sangue, ó destroçados
Anunciadores do mundo
Que a presença das coisas devastou.
Gesto de forma em forma vagabundo
Que nunca num destino se acalmou.


As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no verão. 
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


O Piano sílaba por sílaba 

O Piano sílaba por sílaba 
Viaja através do silêncio 
Transpõe um por um 
Os múltiplos murais do silêncio 
Entre luz e penumbra joga 
E de terra em terra persegue 
A nostalgia até ao seu último reduto 


 Mar 

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.

Poesia I (segunda edição)


Mar sonoro 

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim. 


Praia

Na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços

A praia é longa e lisa sob o vento
Saturada de espaços e maresia

E para trás de mim fica o murmúrio
Das ondas enroladas como búzios.


 ARTE POÉTICA 

A dicção não implica estar alegre ou triste 
Mas dar minha voz à veemência das coisas 
E fazer do mundo exterior substância da minha mente 
Como quem devora o coração do leão 
Olha fita escuta 
Atenta para a caçada no quarto penumbroso 

O Búzio de Cós, 1997 


CÁ FORA 

Abre a porta e caminha 
Cá fora 
Na nitidez salina do real 

Musa, 1994 


Como o Rumor

Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto.


Flores

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.


Luar

O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.


Mar

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua. II

Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros com um grito puro.


Na morte de Cecília Meireles

Seu canto permanece
Alinhando nas páginas dos livros
Verso por verso letra por letra
Canto de poeta
Canto
Interior a tudo

Canto de Cecília
A profunda a secreta
Construtora de um dia
Amargo e ledo
Construtora de um espaço clássico
Num arquipélago nebuloso e medido

Cecília - cinza
As palavras no meio do mar permanecem enxutas


Harpa 

A Juventude impetudosa do mar invade o quarto 
A musa poisa no espaço vazio à contra-luz 
As cordas transparentes da harpa 

E no espaço vazio dedilha as cordas ressoantes 

(Sophia de Mello Breyner Andresen-O Búzio de Cós) 


O búzio de Cós

«Este búzio não o encontrei eu própria numa praia 
Mas na mediterrânica noite azul e preta 
Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais 
Rente aos mastros baloiçantes dos navios 
E comigo trouxe o ressoar dos temporais 

Porém nele não oiço 
Nem o marulho de Cós nem o de Egina 
Mas sim o cântico da longa vasta praia 
Atlântica e sagrada 
Onde para sempre minha alma foi criada.» 

(Junho 1995-Sophia de Mello Breyner) 


Naquele Tempo 

Sob o caramachão de glicínia lilaz 
As abelhas e eu 
Tontas de perfume 

Lá no alto as abelhas 
Doiradas e pequenas 
Não se ocupavam de mim 
Iam de flor em flor 
E cá em baixo eu 
Sentada no banco de azulejos 
Entre penumbra e luz 
Flor e perfume 
Tão ávida como as abelhas 

(Sophia de Mello Breyner Andresen) 
Abril de 98